sexta-feira, 8 de agosto de 2025

ENTRE A GENEALIDADE E A PERFORMANCE | FLAVIO DE CARVALHO

Deixe um comentário
Flávio de Carvalho nasceu em 1899, em Amparo, no interior de São Paulo. Desde jovem demonstrou inquietação intelectual e artística, o que o levou a estudar engenharia civil na Universidade de Durham, na Inglaterra, e a frequentar cursos de arte em Paris. Na Europa, entrou em contato com o modernismo e com as vanguardas artísticas e científicas, absorvendo influências do futurismo, do expressionismo e do cubismo, além de ideias da psicanálise e da antropologia. Esse repertório seria a base de uma carreira marcada por experimentos ousados e por uma provocação constante às normas estabelecidas.

Fachada externa na Alameda Lorena

Vila modernista na Alameda Lorena

De volta ao Brasil no início da década de 1920, Flávio mergulhou no ambiente modernista que se seguia à Semana de Arte Moderna de 1922. Atuando como arquiteto e urbanista, projetou edifícios e residências com traços inovadores, que frequentemente rompiam com a estética predominante. Desde o início, sua postura crítica e pouco convencional gerou atritos com clientes e instituições, mas também conquistou admiradores que viam nele uma figura fundamental para arejar o pensamento artístico brasileiro.


Em 1930, criou a cadeira FDC1, hoje considerada um ícone do design moderno nacional. Feita em madeira e marcada por linhas limpas e estruturadas, ela não tinha como objetivo oferecer o máximo de conforto, mas sim provocar reflexão. Seu encosto levemente inclinado e o assento que exigia uma postura ereta eram um gesto consciente para tornar o ato de sentar uma experiência atenta, longe da passividade. Para Flávio, a “incomodidade” era uma crítica direta à cultura burguesa que priorizava a forma e o status sobre a função, e a FDC1 tornou-se exemplo de como o mobiliário poderia carregar discurso político e estético.



No ano seguinte, ele realizou a chamada Experiência n.º 2, quando decidiu participar de uma procissão de Corpus Christi caminhando em sentido contrário à multidão, observando as reações. O ato lhe rendeu perseguição e quase agressões, sendo protegido pela polícia. Mais do que uma provocação gratuita, Flávio tratou a ação como uma investigação sobre comportamento coletivo, reforçando sua imagem de artista “perigoso” e desafiador.

As décadas seguintes foram marcadas por intensa produção pictórica, experimentações teatrais e textos críticos. Flávio escrevia sobre arte, moda e comportamento com uma ironia afiada, e se interessava especialmente por como o vestuário e o espaço urbano moldavam as relações sociais.



Em 1956, no auge de uma onda de calor em São Paulo, realizou um de seus atos mais famosos: a Experiência n.º 3. Baseando-se em suas reflexões sobre o vestuário masculino no clima tropical, concebeu um traje composto por saia curta, camisa de mangas bufantes e meias até o joelho. Vestido assim, caminhou pelo centro da cidade, registrando e analisando as reações dos transeuntes. A experiência gerou curiosidade, risos e insultos, e foi amplamente noticiada pela imprensa, que a tratou como um escândalo. Para Flávio, porém, tratava-se de um experimento artístico e antropológico sobre preconceito, gênero e as convenções sociais ligadas à roupa.

Flavio de Carvalho apresenta o New Look. Com Maria Della Costa e Maria Ferrara, costureira do traje de verão, 1956 (Foto: Arquivo CEDAE - IEL/ Divulgação)

Em Experiência nº 3, de 1956, Flávio de Carvalho (ao centro) realizou um desfile pelas principais ruas do Centro de São Paulo, vestindo apenas uma blusa transparente, saia curta de pregas, meia arrastão e sandálias: essa performance desafiou convenções sociais da época e reverbera reflexões até os dias de hoje.
Foto: Fundo Flávio de Carvalho/Centro de Documentação Alexandre Eulálio-CEDAE/UNICAMP


Nos anos 1960 e início dos 1970, continuou ativo em exposições e debates culturais, embora concentrasse mais esforços na pintura. Morreu em 1973, deixando um legado que atravessa o modernismo brasileiro e chega até a arte contemporânea. Sua trajetória é um testemunho de que a criatividade não está apenas na técnica ou na forma, mas na coragem de confrontar padrões e provocar reflexão. A FDC1 e as experiências urbanas mostram como ele usou tanto o objeto quanto o corpo para questionar costumes e desafiar o conforto das certezas. Em tempos atuais, suas provocações seguem relevantes, lembrando que a arte pode — e talvez deva — ser um ato de desconforto calculado.

0 comments: