Quando comecei a minha carreira como arquiteto, lá por volta de 2014, eu tive a sorte — e ouso dizer o privilégio — de trabalhar em um dos maiores escritórios de interiores de Curitiba. Sorte mesmo, porque o arquiteto diretor do ateliê era praticamente uma lenda urbana: respeitadíssimo, brilhante, dono de um talento incontestável… e um tantinho teatral. Um Miranda Priestly da arquitetura.
Sua personalidade forte lhe rendeu alguns desafetos no meio profissional, mas também ajudou a consolidar seu personagem. A maioria das pessoas o temia. Alguns colegas do escritório chegavam a prender a respiração quando ele passava pelo corredor. Mas, por algum motivo misterioso do universo (ou do design), ele simpatizava por mim. E eu, confesso, simpatizava muito por ele.
Nos dias cinzas e nublados de Curitiba —, quando ele claramente não estava muito afim de trabalhar, me chamava para a biblioteca do escritório. Ali, sobre a luz amarelada do Pipistrello, passávamos horas folheando edições antigas da Casa Vogue ou revistas francesas de decoração que ele importava de suas inúmeras viagens à sua cidade preferida: Paris, évidemment.
Foi então que ele me deu uma aula que eu carrego até hoje, quase como um mantra profissional:
— Aprende uma coisa: nós, que não nascemos em berço de ouro, precisamos ser curiosos. Precisamos estar atentos àquilo que nos constrói. Se você não tem dinheiro para se hospedar nos melhores hotéis do mundo, projetados pelos melhores artistas do mundo, pelo menos vá tomar um café. Observe. Veja cada detalhe. Inspire-se.
Aquilo ficou ecoando na minha cabeça. E fazia todo sentido.
— Eu, por exemplo, juntei dinheiro para ficar hospedado no Plaza Athénée. Foi divino. De vez em quando precisamos disso. É vital para nos mantermos vivos.
| Minha primeira vez em Paris |
Alguns anos depois, finalmente aterrissei pela primeira vez na Cidade Luz. E fui direto cumprir os conselhos do meu mestre, como um bom discípulo aplicado. Me arrumei com cuidado quase cerimonial: blazer de botões dourados, mocassins Gucci e coragem. Pela primeira vez, pisei no Hôtel de Crillon. Meus olhos simplesmente não davam conta de absorver tanta beleza. Era como entrar em um livro de história — só que vivo, sensorial, tridimensional.
Foi ali que minha forma de enxergar a arquitetura, especialmente a de interiores de hotelaria, mudou completamente. Entendi que hotéis não são apenas lugares para dormir. São cenários, narrativas, experiências cuidadosamente coreografadas. Cada luminária, cada textura, cada aroma tem um papel. A hotelaria ensina sobre acolhimento, sobre ritmo, sobre como fazer alguém se sentir especial — nem que seja por um café.
Desde então, não perco a oportunidade de entrar em um hotel com o singelo pretexto de tomar um cafezinho, um drink ou uma sobremesa. De quebra, absorvo detalhes, atmosferas e sensações que só estando no espaço conseguimos captar. Porque projeto de interiores de hotelaria não se aprende apenas em plantas ou renders impecáveis. Aprende-se vivendo. Ou, como diria meu antigo chefe: com curiosidade, bons sapatos e um café bem tomado.








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