segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

E POR FALAR EM PAOLA LENTI ...

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Residencial privada no Rio de Janeiro com projeto de Arthur Casas e mobiliario Paola Lenti.




CHEZ VISITA | FABRICA E SHOWROOM PAOLA LENTI

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Conhecida mundialmente como a rainha do mobiliário outdoor, Paola Lenti construiu uma trajetória singular em um mercado altamente competitivo — e historicamente masculino — guiada pela delicadeza, sensibilidade e por uma visão autoral inconfundível. Seu design, livre de amarras formais, aliado ao uso ousado e expressivo das cores, transformou a marca em um dos nomes mais aguardados do Salone del Mobile, onde seus lançamentos fazem o mundo do design literalmente parar para observar.


A história da marca começou com tapetes. Peças que, desde o início, já revelavam um profundo cuidado com matéria-prima, textura e cor. Em pouco tempo, o portfólio se expandiu de forma orgânica até alcançar o que vemos hoje: uma coleção completa capaz de vestir a casa inteira, do indoor ao outdoor, sem distinções rígidas. Essa evolução fica clara no novo showroom da marca em Milão, concebido como um apartamento cheio de personalidade, onde cada ambiente explora, em diferentes camadas, o DNA da designer.

Apartamento Paola Lenti no show-room em Milão

Tive o privilégio de ser convidado pela Paola Lenti para uma experiência rara: conhecer de perto a fábrica da marca, localizada na região de Meda, próxima ao Lago de Como, e, na sequência, visitar o recém-inaugurado showroom em Milão. Foram três dias de imersão total no universo da marca — uma vivência que aprofunda o olhar e muda a forma como passamos a perceber cada peça.


Saí dessa experiência profundamente impactado pela obsessão da marca pelas cores e, sobretudo, pela tecnologia aplicada em cada criação. Um dos exemplos mais emblemáticos é o fio bouclê desenvolvido a partir de plásticos reciclados. O resultado surpreende não apenas pela inovação sustentável, mas pelo toque extremamente confortável do tecido, que poderia facilmente ser utilizado em ambientes internos, desafiando a fronteira tradicional entre indoor e outdoor.









Outro detalhe que revela o nível de pesquisa envolvido está nos metais utilizados nas peças. Mesmo quando sofrem pequenos riscos, o próprio oxigênio presente no ar ativa um processo de restauração natural, garantindo longevidade e beleza contínua ao material.
 



Visitar a fábrica e o showroom da Paola Lenti é entender que, por trás de cada cor vibrante e cada forma, existe um pensamento profundo, uma engenharia sofisticada e uma sensibilidade rara. Um design que não busca apenas encantar o olhar, mas criar conexões duradouras entre pessoas, espaços, tempo e natureza.

sábado, 27 de dezembro de 2025

A ARTE DE SABER OBSERVAR | HOTEL

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 Quando comecei a minha carreira como arquiteto, lá por volta de 2014, eu tive a sorte — e ouso dizer o privilégio — de trabalhar em um dos maiores escritórios de interiores de Curitiba. Sorte mesmo, porque o arquiteto diretor do ateliê era praticamente uma lenda urbana: respeitadíssimo, brilhante, dono de um talento incontestável… e um tantinho teatral. Um Miranda Priestly da arquitetura.

Sua personalidade forte lhe rendeu alguns desafetos no meio profissional, mas também ajudou a consolidar seu personagem. A maioria das pessoas o temia. Alguns colegas do escritório chegavam a prender a respiração quando ele passava pelo corredor. Mas, por algum motivo misterioso do universo (ou do design), ele simpatizava por mim. E eu, confesso, simpatizava muito por ele.

Nos dias cinzas e nublados de Curitiba —, quando ele claramente não estava muito afim de trabalhar, me chamava para a biblioteca do escritório. Ali, sobre a luz amarelada do Pipistrello, passávamos horas folheando edições antigas da Casa Vogue ou revistas francesas de decoração que ele importava de suas inúmeras viagens à sua cidade preferida: Paris, évidemment.

— Lino, você conhece Paris?
— Ainda não… é o meu sonho — respondi, no melhor tom Andy Sachs antes do extreme makeover e das botas da Chanel.
— Você vai amar. Mas precisa fazer direito. Você tem que tomar um café da manhã no Crillon. Ou um brunch. Aquilo é incrível. As tapeçarias, a decoração… tudo é muito precioso.
— Ir num hotel? — perguntei, meio atordoado.
— E por que não?

Foi então que ele me deu uma aula que eu carrego até hoje, quase como um mantra profissional:

— Aprende uma coisa: nós, que não nascemos em berço de ouro, precisamos ser curiosos. Precisamos estar atentos àquilo que nos constrói. Se você não tem dinheiro para se hospedar nos melhores hotéis do mundo, projetados pelos melhores artistas do mundo, pelo menos vá tomar um café. Observe. Veja cada detalhe. Inspire-se.

Aquilo ficou ecoando na minha cabeça. E fazia todo sentido.

— Eu, por exemplo, juntei dinheiro para ficar hospedado no Plaza Athénée. Foi divino. De vez em quando precisamos disso. É vital para nos mantermos vivos. 


Minha primeira vez em Paris

Alguns anos depois, finalmente aterrissei pela primeira vez na Cidade Luz. E fui direto cumprir os conselhos do meu mestre, como um bom discípulo aplicado. Me arrumei com cuidado quase cerimonial: blazer de botões dourados, mocassins Gucci e coragem. Pela primeira vez, pisei no Hôtel de Crillon. Meus olhos simplesmente não davam conta de absorver tanta beleza. Era como entrar em um livro de história — só que vivo, sensorial, tridimensional.




Foi ali que minha forma de enxergar a arquitetura, especialmente a de interiores de hotelaria, mudou completamente. Entendi que hotéis não são apenas lugares para dormir. São cenários, narrativas, experiências cuidadosamente coreografadas. Cada luminária, cada textura, cada aroma tem um papel. A hotelaria ensina sobre acolhimento, sobre ritmo, sobre como fazer alguém se sentir especial — nem que seja por um café.



Desde então, não perco a oportunidade de entrar em um hotel com o singelo pretexto de tomar um cafezinho, um drink ou uma sobremesa. De quebra, absorvo detalhes, atmosferas e sensações que só estando no espaço conseguimos captar. Porque projeto de interiores de hotelaria não se aprende apenas em plantas ou renders impecáveis. Aprende-se vivendo. Ou, como diria meu antigo chefe: com curiosidade, bons sapatos e um café bem tomado.

terça-feira, 30 de setembro de 2025

MILAN IS CALLING | POLTRONOVA

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Acabo de sair de uma imersão com a Poltronova e voltei com a sensação de ter descoberto um universo secreto do design. Em poucas horas, o time de criação percorreu as peças mais emblemáticas do portfólio e compartilhou histórias deliciosas que eu sequer imaginava. Por isso me senti encorajado a vir aqui no blog e compartilhar tudo o que descobri com vocês. 


A Poltronova foi fundada em 1957 por Sergio Cammilli, em Agliana, na Toscana. Logo nos primeiros anos, contou-se com o talento de Ettore Sottsass como diretor artístico, ele entrou em cena em 1958.

A marca distinguiu-se por ser uma espécie de laboratório radical de design: num momento em que muitas empresas de mobiliário seguiam a linha moderna ou funcionalista, a Poltronova abriu espaço para ousadias. Colaborou com nomes como Archizoom, Superstudio, De Pas-D’Urbino & Lomazzi, Gae Aulenti, Angelo Mangiarotti, Giovanni Michelucci — gente que queria romper, questionar, brincar com formas, cor, matéria, conceito. 


Nos anos 60 e 70 o design radical italiano fervilhava, e Poltronova foi centro desse movimento. Também participou em exposições importantes, como “The New Domestic Landscape” no MoMA de Nova York (1972), contribuindo para que algumas das suas peças se tornassem ícones reconhecidos internacionalmente.


Com o passar do tempo, houve fases de maior comercialização e também alguns períodos de descaso, mas o espírito original resistiu através de reedições e do trabalho do Centro Studi Poltronova, que preservou arquivos, memórias, desenhos, peças históricas. Hoje Poltronova vive uma espécie de renascimento: relançamentos de clássicos, peças históricas produzidas de novo, mantendo o DNA ousado e irreverente da marca. 

Estas são algumas das que mais me chamaram à atenção — tanto pelo design quanto pelo “espírito Poltronova”:


Superonda (Archizoom Associati, 1967) — um sofá que não tem madeira, nem armação rígida: dois blocos de espuma paralelepipédica que se encaixam e sobrepõem, permitindo diferentes configurações. É mobiliário que desafia convenções de conforto e estrutura.

Joe (De Pas, D’Urbino, Lomazzi, 1970) — aquela poltrona/divanete/pufe em forma de luva de basebol. É divertida, escultórica, pop, e ao mesmo tempo potente no seu impacto visual. 

Ultrafragola (Ettore Sottsass, 1970) — espelho/luminária com moldura sinuosa, luz rosa, bordas ondulantes. Uma peça que conflui design, teatro, luz, objeto de desejo. 

Mies (Archizoom Associati) — cadeira/poltrona que contrasta com muito do que se fazia tradicionalmente: estética radical, forma forte, atitude. 

Passiflora (Superstudio) — um candeeiro-de pé com formas florais, materiais pop, que atinge uma estética quase performativa.




A Poltronova ganhou meu coração e entrou no meu radar. Bravo! 

sexta-feira, 8 de agosto de 2025

MORAR BEM | ISAY WEINFELD

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“Morar bem” pode ter vários significados diferentes… Para aqueles que não tiveram a chance de sequer um teto para morar, “morar bem” pode ser apenas “ter um bom colchão”. Para os que tiveram todas as chances, o conceito de “morar bem” vai se modificando durante a vida. No começo, o quarto do bebê, o gosto da mãe, a mesmice infantil. Depois, os primeiros desejos, as cores, o lugar de brincar. Mais tarde, os primeiros sintomas da personalidade, o quarto que se transforma num mundinho particular, a loucura. À medida que vamos crescendo, começamos a acumular – os discos, os livros, os cacarecos. Começamos a perceber que são estas as coisas que nos traduzem. Nossa casa vira um amontoado de lembranças, começamos a colecionar objetos, arte, inutilidades. “Morar bem” já não cabe em nosso espaço. Sentimos necessidade de exibir, de receber pessoas em casa, de aumentarmos a família.


Enfim, de mais espaço. É tudo tão grande que os desencontros ficam mais frequentes, a solidão aumenta, o vazio torna-se insuportável. Amadurecemos, e o significado de “morar bem” continua a se modificar. Já não estamos tão satisfeitos assim, em nos perdermos dentro de nossa própria casa. Vamos chegando à última parte da vida, e bate uma vontade de sintetizar, jogar tudo fora, se desfazer, procurar a essência, se ver livre… finalmente. Daí, “morar bem” significa estar no menor espaço possível, ficar só com aquela peça que resume toda a coleção. Significa, a simples parede branca. É quando fica claro que não precisamos realmente de muita coisa. Nada muito além de um bom colchão.


Isay Weinfeld
Revista Joyce Pascowitch
Fevereiro 2008